A evolução da História no século XX

 

A evolução da História no século XX

O século XX foi particularmente dinâmico no que se refere à evolução da historiografia. Ao longo deste século, há a destacar algumas etapas de evolução, nomeadamente:
  • A crise da História que dominou as primeiras três décadas do século.
  • O surgimento da História Nova nas décadas de '30 e '40
  • A institucionalização da História Nova nos anos '50/’60 e
  • As novas tendências historiográficas a partir dos anos '70.

A crise da História no início do século

Entre as várias correntes historiográficas da segunda metade do século o Positivismo tornou-se a corrente preponderante. É o mesmo que dizer que no final do século predominava uma História científica, factual, política e cronológica. Entretanto, o Historicismo atenuava a visão estritamente positivista, reduzindo a ânsia de encontrar leis e prever o futuro, destacando o papel activo do historiador e realçando a subjectividade e a relatividade do conhecimento histórico.

O realce dado pela História aos assuntos institucionais e políticos fez da História a área de conhecimento preferida pelos dirigentes, de tal modo que, mesmo com o surgimento das ciências sociais e humanas, a História continuou a ser «dona e senhora» do conhecimento humano. Era como se fosse a «mãe» de todas as ciências.

Era, portanto, a ciência privilegiada no conjunto das ciências sociais.
A partir de princípios do século XX a condição de ciência privilegiada, de que a História gozava, começou a ser posta em causa devido a vários factores:

1.     A critica feita por novas correntes historiográficas História tradicional:
  • O Materialismo Histórico trouxe uma nova concepção, materialista, da História, acentuando o papel das massas e a importância da Hist6ria estrutural e de longa duração.
  • François Simiand denunciou o que chamou «os três ídolos da tribo dos historiadores»: o ídolo político, o ídolo cronológico e o ídolo individual.
2.     As novas correntes de pensamento:
  • Os estudos filosóficos que vieram alargar o conhecimento do Homem de si mesmo, o Estruturalismo que veio alterar o conceito do Homem e, portanto, da própria História.
3.     A evolução científica da época:
  • O desenvolvimento das ciências fez alterar o conceito de ciência e a atitude dos cientistas face à ciência.
4.     A emergência das ciências humanas e sociais (Sociologia, Geografia Humana, Antropologia Social e Cultural e Etnologia):
  • As novas ciências passaram a ocupar-se de assuntos que antes eram tratados em História retirando à História o exclusivo do conhecimento humano.
A crescente importância destas ciências sociais colocou aos historiadores três novos problemas:
  • O da definição e delimitação do conteúdo específico da História.
  • O da reformulação da sua função.
  • O da metodologia
5.     O impacto das guerras mundiais:
  • A História tradicional positivista tornou-se incapaz de explicar as grandes transformações provocadas pelas guerras mundiais, dai o espaço para a afirmação de novas ideias historiográficas.

A escola dos Annales 1929-1946

Diante da crise em que a História se via mergulhada, no início do século XX, começaram a surgir as mais diversas tentativas para ultrapassar a crise.
Um dos espaços privilegiados para a apresentação das novas propostas historiográficas foi a revista Annales d'Histoire Economique et Sociale.

Fundada em 1929, por Marc Bloch e Lucien Febvre, esta publicação aglutinou parte importante das novas propostas historiográficas que procuravam dar respostas às exigências de um novo saber alterando os domínios e métodos de trabalho.
Os Annales, que passaram a constituir uma verdadeira escola historiográfica, tornaram-se o berço da História Nova, apresentando novas ideias. Quais?

A luta contra a historiografia positivista tradicional

Um dos maiores desafios, senão mesmo o maior dos Annales, era a renovação do conceito de Hist6ria. Para os Annales, era preciso romper com a História política e individualizada, factual e superficial e avançar rumo a uma História de homens e populações tomados como totais, económica e social, e que tendia para a História comparada das civilizações.

O alargamento do território do historiador

A História dos Annales procurava, em oposição à História positivista que privilegiava os assuntos e figuras da Vida política, caminhar para uma História de todos os homens, uma História do Homem total, ou simplesmente, uma História humana.

O alargamento do campo do documento

Contrariamente à História positivista que considerava documento histórico apenas o documento escrito, os Annales entendiam como documento «tudo o que, sendo do Homem, depende do Homem, serve para o Homem, significa a presença, a actividade, os gostos e as maneiras de ser do Homem».

Portanto, para os Annales, qualquer tipo de escrito, os documentos figurados, os produtos das escavações arqueológicas, os documentos orais, etc., podem ser considerados documentos históricos.

A revalorização do papel activo do historiador

Os Annales iniciaram a critica à noção positivista do facto histórico, bem como å ideia de reduzir o trabalho do historiador à investigação do facto histórico. Para esta escola historiográfica, o facto histórico não existe senão integrado num certo contexto histórico. Cabe, pois, ao historiador, no meio da enorme gama de material, escolher, por via de uma construção científica do documento: «o facto histórico é uma criação do historiador». Os Annales esforçam-se por colocar fim ä passividade dos historiadores perante os factos e, embora sem os exageros dos historicistas, defendem uma acção mais activa do historiador na construção do conhecimento histórico. Nesta linha de pensamento, os Annales defenderam a chamada história-problema. Como diziam: «não só descrever, senão resolver, pelo menos, colocar problemas».

A institucionalização da História Nova

De 1946 a 1956, a revista Annales esteve sob a direcção de Lucien Febvre, que contava com a colaboração de grandes historiadores da época como: Robert Mandrou, Marc Ferro, Charles Morazé, Fernand Braudel e outros.

As novas propostas

A procura de novos objectos para a História
A História Nova, porque pretendia ser uma História global e total, era uma História obrigada a buscar novos objectos, debruçando-se sobre questões até aí estudadas em outras ciências sociais como a Antropologia, Geografia, Economia, Etnologia e Psicologia. Por outro lado, o estudo das massas, no lugar das figuras públicas, levaria a que marginais, mulheres, camponeses, operários, etc., começassem a ocupar na História o lugar antes reservado aos reis, guerreiros e outras figuras públicas. Era o surgimento de novos heróis.

O alargamento do âmbito cronológico da História

A evolução científica em geral e, em especial, o surgimento das ciências auxiliares da História, permitiram à História aprimorar os seus métodos e desenvolver novas técnicas e meios de investigação. Assim, a História aumentava o tipo e número de fontes e, desse modo, alargava o seu tempo de estudo, ou seja, abarcava épocas muito mais recuadas no tempo.

O alargamento do âmbito geográfico

Até à década de 1930, a História ocupou-se, quase exclusivamente, dos povos e nações considerados civilizados - os europeus. Os outros povos eram apenas referidos na medida em que estiveram em contacto com os «civilizados».

A proposta historiográfica nos anos 40/50 foi, portanto a de se avançar para uma História Universal, que não se limitasse a ser um desfile de povos que «contribuíram para a civilização». Opunha-se ao eurocentrismo, que caracterizava a História, e propunha uma nova tendência visando a universalidade.

Nesta nova perspectiva, a História alargava o seu estudo a uma multiplicidade de civilizações e culturas de todo o mundo. O terceiro mundo surgia, assim, como um dos novos alvos de interesse da História.

A História estrutural de Braudel

Após a morte de Lucien Febvre, em 1956, a História iniciou, em 1958, uma nova etapa sob a liderança de Fernand Braudel que tinha como maiores colaboradores Charles Morazé (1 913-2003) e Georges Friedmann (1902-1977).
Fernand Braudel

No seu artigo «História e Ciências Sociais: a longa duração» publicado em 1958, Braudel apresentava as ideias-chave de uma nova História - a História estrutural, baseada na longa duração.

Entretanto, será a partir de 1969, quando os Annales foram confiados a uma nova equipa - André Burguiére, Marc Ferro (1924-?), Jacques Le Goff (1924-?), Emmanuel Le Roy Ladurie (1929 na Normandia) e Jacques Revel, que seria sistematizada esta História Nova, problemática, estrutural e interdisciplinar.

Características

Um novo conceito de tempo histórico – com Braudel, a História desenvolveu uma nova noção de tempo histórico. Braudel defendeu que o tempo social nem sempre coincide com o tempo cronológico, pelo que o tempo histórico deve ser medido, não pela sequência do calendário, mas pela sequência, permanência ou mudança dos fenómenos. Assim, Braudel propôs um modelo triplo de duração histórica, nomeadamente:
  • Tempo curto ou curta duração - o tempo dos acontecimentos ou dos eventos (a explosão de uma bomba, por exemplo...). Os acontecimentos de curta duração referem-se a ocorrências superficiais e por isso o seu estudo não exige uma análise profunda.
  • Tempo médio ou média duração – que se refere às pequenas variações cíclicas. É o tempo das conjunturas. Por exemplo, uma crise ou uma guerra.
  • Tempo longo ou longa duração - corresponde às «grandes repetições» ou «grandes permanências». São os acontecimentos que tendem a permanecer e que quando se alteram fazem-no muito lentamente (por exemplo, um modo de produção). É o tempo das estruturas.
A aproximação com as ciências sociais – o ideal de História total e de longa duração perseguido pela História Nova só pode ser alcançado se a História se aproximar das demais ciências sociais. Só esse contacto a interdisciplinaridade - permitirá à História debruçar-se sobre todos os aspectos ligados Vida da humanidade. Assim, a História tem ligações com Antropologia, Sociologia, Economia, Geografia, Psicologia, Linguística, Psicanálise, Matemáticas Sociais e Ciências da Vida.

A revolução nas metodologias - a ideia de uma História total, global e, sobretudo, interdisciplinar só pode ser materializada com recurso à especialização e ao trabalho em equipa. Portanto, quando se fala de uma História interdisciplinar é imprescindível o trabalho em equipa envolvendo especialistas das diversas áreas de conhecimento.

As tendências da História a partir da década de 1970

Nos anos de 1 970, a História Nova começa a ser alvo de críticas:
  • Falta de originalidade - os Annales trouxeram à História novos objectos e novos heróis, mas nada mais fizeram senão retirar esses elementos de outras ciências. Portanto, essa mudança não se deveu a uma verdadeira inovação na História.

As novas propostas a partir da década de 1970

Os críticos da História Nova trariam, a partir dos anos de 1970, novas propostas que podem ser designadas Novo Estruturalismo, que tem como principais características:
  • O retorno narrativo e à visão linear e cronológica da História
  • Revalorização do facto histórico
  • O retorno à História política.

Bibliografia
SUMBANE, Salvador Agostinho. H11 - História 11ª Classe. 2ª Edição. Texto Editores, Maputo, 2017.

Comentários